Nota de Pesar

Estimado Professor Doutor Boaventura de Sousa Santos

Director Emérito do Centro de Estudos Sociais

Universidade de Coimbra

Assunto: Nota de Pesar

De Maputo, Moçambique, foi com muita tristeza que tomei conhecimento do falecimento, a 8 de Fevereiro de 2026, da Professora Doutora Maria Paula Meneses, Investigadora do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, Directora do Primeiro Programa de Doutoramento em Estudos Pós-Coloniais da Europa, no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra.

Gostaria de, neste momento de dor, deixar o meu testemunho sobre esta grande estudiosa. Embora já a conhecesse, a minha relação e admiração cresceu, aquando das pesquisas que deram lugar aos dois volumes do Conflito e Transformação Social: uma paisagem das justiças em Moçambique, com a primeira edição em Março de 2003, fazendo história no vocabulário jurídico, sociológico e antropológico de Moçambique.

Dai em diante passamos a travar uma relação pessoal de amizade e de contacto permanente, o que se estendeu ao ambiente de trabalho, no debate de temas académicos, temperados por acordos e desacordos, para além de convívios na veste de almoços ou jantares, entre amigos, com abordagem de uma miscelânea de temas, quer em Maputo, quer em Coimbra.

Com o desaparecimento físico da Maria Paula Meneses, o CES, Moçambique e os moçambicanos, perderam uma referência invulgar, uma académica irreverente que não pactuava com a cultura de simples reprodução da perspectiva do status quo académico, mas indagava cada conceito, tema, hipótese ou tese. A RTP perde, igualmente, uma exímia comentadora às quintas-feiras. A academia perde uma referência inegável.

Mas, mais ainda, era duma simplicidade invulgar mesmo no traje, na fala e no trato, e nem se arvorava nos títulos académicos para ser relevante, pois a sua abordagem era por si mesma afirmativa e convincente. Era uma pessoa de um humor incomum.

Todos sabemos que a Maria Paula Meneses foi acometida por uma grave doença que esteve na origem de uma campanha de difamação vil para o assassinato do seu carácter e da sua forma de ser e de estar, da sua honestidade intelectual, que acabou desaguando no seu assassinato físico. A história julgará tudo isso. Com sua morte os seus inimigos não apagarão os seus ideais. Mesmo ciente de que esta mensagem não a fará ressuscitar, esta e outras mensagens farão uma teia para a demonstração de quanto a amávamos e a publicação das suas obras fará que ela perdure por longos anos.

Recordo-me que a última vez que estive em Portugal, desaconselhou-me que a visitasse, não queria que eu sofresse tanto, por lhe ver no estado em que estava, queria, como amigo, poupar-me do sofrimento redobrado. A contragosto, anui, porque todos quantos conheceram a Paula, sabem quanto era muito sentimental, poderia chorar perdidamente ao cruzar os seus olhos com os do amigo, em estado débil.

Neste momento de dor e consternação, ainda que banhado de lágrimas, dirijo-me a si, Professor Doutor Boaventura de Sousa Santos, Director Emérito do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, um centro por si fundado e sabiamente dirigido e baseado na filosofia de uma investigação dinâmica, para apresentar os meus profundos sentimentos de pesar pela perda irreparável, e solicitar que transmita a minha incondicional solidariedade à família enlutada.

Grata memória!

Maputo, Moçambique, 10 de Fevereiro de 2026.

Augusto Raúl Paulino

Antigo Procurador-Geral da República de Moçambique

Juiz Conselheiro do Tribunal Supremo Jubilado

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